My way!

tite

Ainda me lembro como se fosse hoje. Dezessete de julho de 1994. Los Angeles. De repente surge aquele uniforme muito “cheguei” nas cores brasileiras. Lá vinha Carlos Alberto Parreira trazendo o sorriso de quem acabara de ganhar o mundo. A imprensa toda reunida no espaço chamado de zona mista no Rose Bowl. Ele, separado de nós por uma grade, cercado por câmeras fotográficas, tinha à disposição microfones do mundo inteiro. Pôde agradecer as felicitações dos que sempre acreditaram na Seleção e teve que explicar aos incrédulos críticos como venceu a Copa dos Estados Unidos.
Parreira sorria irônica e educadamente. Parecia querer explodir por dentro, esnobar aqueles que apostaram na derrota desde o início, mas se conteve e soltou uma frase que eu jamais esqueceria: “Nós ganhamos. Nós ganhamos”, repetiu, “mas como Frank Sinatra diz, foi do meu jeito.” Em uma resposta estava a síntese de todo o seu trabalho. Fez o Brasil jogar da forma que ele sabia fazer um time jogar e de um modo que pudesse ser campeão e recuperar o prestígio de quem não vencia um Mundial havia 24 anos. O “nós” não era o uso de quem se considera um personagem, ele realmente queria incluir todos e qualquer brasileiro exatamente para enfatizar o mais importante: a vitória veio pelos métodos dele.

Se eu fosse fazer uma sugestão ao novo técnico da Seleção diria a ele que faça igual a Parreira, que Tite acredite em seus fundamentos, que não se desvie de sua capacidade e experiência adquiridas em mais de 30 anos de futebol. Quer um Brasil que faça triangulações, de ultrapassagens pelas laterais, de compactação ao perder a bola, de combate no setor em que perdê-la, invista nisso. Acho que não resta dúvida que houve um progresso na troca de técnico na CBF. Poucos evoluíram tanto como ele nos últimos anos no país. Mudou de esquema, de modelo de jogo e com todos foi vencedor. Se vai dar certo, se o Brasil será campeão, se vai chegar a algum lugar, só o tempo vai nos dizer. Porém, optar pelo caminho conhecido será o primeiro passo para a vitória.

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A fila do “não” andou mais rápido

oswaldo

Entre todos os nomes pensados pelo Corinthians, o clube ouviu três “não, obrigado”, um outro disse que “adora o Corinthians”. Eduardo Baptista, Fernando Diniz e Roger optaram pela manutenção do trabalho em suas equipes. Certamente, nesse momento, não estariam na fila de técnicos que bateriam na porta corintiana como pretenciosamente disse o presidente Roberto de Andrade, ontem à tarde.

O clube, por tudo o que representa, é o sonho de consumo de vários treinadores. O problema é quais treinadores estão na fila de pretendentes ao cargo. Oswaldo de Oliveira não escondeu o amor pelo time que lhe deu a primeira oportunidade e o maior título, o de campeão do mundo em 2000. Deu a impressão de que está nessa fila, mas, aos 65 anos, se discute muito se está atualizado com o futebol, se daria liga com o grupo atual. Estar empregado no Sport não pareceu ser um empecilho. Primeiro porque a campanha no time pernambucano é ruim e se mantiver a fase, Oswaldo não deverá ter vida longa no Recife. Segundo que, já se sabe, o Corinthians não tem pensado apenas em treinador desempregado.

Entre os “sem salário” está Diego Aguirre. O uruguaio deixou o Atlético Mineiro depois da eliminação na Libertadores e pode ser uma boa aposta se identificarem dentro do elenco corintiano uma vocação para jogar com transição mais rápida, de mais bolas longas, depois de uma compactação forte sem a bola. Isso difere da herança deixada por Tite, uma equipe que procurava tocar a bola e envolver com ultrapassagens e triangulações.

Mais do que contratar um treinador novo, é preciso antes entender o elenco que tem e ver como pode funcionar. Contratar o substituto de Tite por contratar, é encher lacuna e gastar dinheiro. A definição do técnico é essencial para o sucesso de um time e não pode ser decidido apenas pelo gosto de quem chama para conversar. Pior será se for apenas pela presença na fila da porta da esperança.

Um nome para o lugar de Tite

O Corinthians ainda não perdeu o treinador, mas sabe que o gato subiu no telhado. Ainda hoje, Tite deve ser anunciado como o novo técnico da Seleção Brasileira e o cargo no clube estará vago. Três nomes estão muito cotados.

Há muito tempo sabe-se do amor do presidente Roberto de Andrade pelo trabalho de Oswaldo de Oliveira. Fosse em outro momento, seria consultado sem muita cerimônia. Hoje, dirigindo o Sport na zona do rebaixamento do Campeonato Brasileiro, acho pouco provável, que o dirigente banque sua contratação.

Eduardo Baptista cresceu vendo o pai, Nelsinho, ser o primeiro técnico campeão brasileiro pelo clube. Novo na profissão, vem acompanhado com um rótulo de profissional moderno e com um ótimo trabalho no mesmo Sport. Mas em sua primeira chance em um time grande, fracassou no Fluminense e durou menos de seis meses. Além disso, acabou de começar um trabalho na Ponte Preta. Largaria sem pensar como fez com o Sport no ano passado?

Abel Braga está sem clube. Seu nome já esteve na mesa corintiana algumas vezes desde que o grupo atual passou a dirigir o Corinthians. Foi campeão mundial com o Internacional em 2006. Façam suas apostas.

Entre o sonho e a coerência, qual você escolhe?

Imagine que seu sonho fosse dirigir a Seleção Brasileira. Que em menos de um ano, recebesse três convites para dirigi-la. Difícil dizer não, correto? Talvez. Por mais que a oferta seja tentadora, o que existe por trás do convite pode ser um enorme campo de areia movediça a te engolir.

Tite está aceitando assumir o cargo acreditando em um céu de brigadeiro difícil de se ver à luz da razão. Ele pode levar todos que vão ficar ao seu redor, do gerente ao massagista. Isso não lhe garante total liberdade. Nem a ele, nem a nenhum outro escolhido. Pensar em independência nas convocações é rasgar um contrato existente entre a CBF e a patrocinadora dos jogos amistosos, que exige a presença de certos jogadores que ela considera “5 estrelas” como bem mostrou o jornalista Jamil Chade recentemente.

O horizonte apresentado ao até hoje técnico do Corinthians é o mesmo mostrado a outro ex-treinador do clube, seis anos atrás. Mano Menezes não resistiu ao convite de Ricardo Teixeira e apostou num projeto de quatro anos para a Copa no Brasil. Porém, por problemas com a Justiça, Teixeira renunciou ao cargo e quem assumiu a vaga não morria de amores pelo então técnico da Seleção. O resultado foi um pé nos fundilhos dado por José Maria Marim, por telefone, na metade do trabalho.

A cartada de Marco Polo é, claramente, desviar o foco. “Se é o Tite que eles querem, o daremos a eles. E não me cobrem mais”, deve estar pensando. Para o futuro técnico, pouco importa nesta hora se Del Nero é investigado pelo FBI e não poderá acompanhar a Seleção em viagens internacionais. Por outro lado, pouco importa ao dirigente o fato de Tite ter assinado um manifesto contra a atual administração do futebol brasileiro em dezembro do ano passado. E nisso, cinicamente, o cartola tem razão. O incoerente neste caso não é ele.