Cuidado, pode ser ouro de tolo

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A inédita conquista brasileira alegrou a todos nós que gostamos de futebol e nascemos neste país com todas as mazelas e prazeres. O ouro olímpico, inédito, vai servir pra resgatar a nossa auto estima que andava mesmo abaixo de cobra. Foi um título merecido pelo que apresentou a partir da terceira rodada na vitória diante da Dinamarca.

O que fico sempre com medo é de que esse tipo de conquista sirva para camuflar nossos erros na condução do esporte mais popular do país. O ouro olímpico nada mais é do que – perdão pela obviedade – um ouro olímpico. Foi o melhor ali, naquela competição, que pouco representa no mundo do futebol.

Se você acha que estou sendo pessimista, lembro que a Argentina foi bicampeã olímpica em 2004 e 2008 e… e nada. Há 23 anos que não ganha uma competição internacional. O Uruguai é bicampeão olímpico também e o último título mundial foi em 1950. Ou seja, esse torneio é quase um Mundial  sub-23 superestimado pela mídia por transmitir em horário nobre.

Nossos problemas no futebol brasileiros estão longe de serem resolvidos. Nossos cartolas seguem só pensando neles, nossos treinadores, atrasados, nossa imprensa continua perdendo de 7 a 1 e os melhores jogadores estarão com pensamento na Europa. Celebremos o inédito título, sabendo que continuamos a ver muitas dificuldades para conseguir a vaga na Copa da Rússia.

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Eliminada, Hope Solo perde o humor

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Toda a irreverência que Hope Solo mostrou na foto em aparecia protegida contra o Zika Vírus, está demonstrada pelos brasileiros ao saber da eliminação do time feminino de futebol dos Estados Unidos, agora à tarde. Os memes viralizaram rapidamente, tirando uma onda com a goleira norte-americana, que por seu lado demonstrou ser má perdedora. Ao ser entrevistada na saída do campo, disse que seu time havia perdido para “um bando de covardes” e que as “melhores não tinham vencido”.

Péssimo exemplo de quem não está acostumada a ser derrotada. Desde que as mulheres começaram a disputar o futebol nos Jogos Olímpicos, em Atlanta, em 1996, os Estados Unidos nunca tinham ficado de fora de uma final. Foram quatro medalhas de ouro em cinco decisões. Agora, vão ver pela TV, e a Suécia vai encarar a vencedora de Brasil e Austrália.

O que melhorou no Brasil de Neymar

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A Seleção Olímpica desembarca em São Paulo com uma bagagem bem mais leve do que aquela que carregava até Salvador. A goleada diante da Dinamarca não só serviu para classificar a equipe como para diminuir a ansiedade do grupo, que além da pressão externa, sentia a interna, aquela que nós mesmos nos fazemos quando sabemos que não estamos rendendo como estamos acostumados.

A postura em campo foi o maior avanço, na minha opinião. O Brasil saiu pressionando, se impondo diante de um adversário tão fraco quanto os demais. A entrada de Luan na vaga de Felipe Ânderson ajudou muito nas triangulações e movimentações de Neymar e Gabriel Jesus. Wallace e Renato Augusto jogaram mais próximos  do quarteto, dando sustentação, apoio a eles e aos laterais, que subiram mais. A equipe foi mais compacta, invadiu as linhas dinamarquesas sem dar espaço para os contragolpes.

A partir do primeiro gol, o jogo fluiu mas até lá ainda se podia ver os rostos franzidos, as reclamações ao céu a cada erro de finalização. É preciso que a garotada consiga encontrar o equilíbrio emocional para o lado tático e, principalmente o técnico, aparecer. Contra a Colômbia será um ótimo teste, talvez o definitivo. Apesar de ter se classificado na repescagem pré-olímpica, o time colombiano tem bons reforços para os Jogos.

O atual campeão da Libertadores, o Nacional de Medellin cedeu o jovem Borja, que brilhou na reta final da competição sul-americana e é reserva na seleção, o goleiro Bonilla, o lateral Aguilar e o meia Perez, que eram reservas. O atacante Téo Gutiérrez, do Sporting, é um dos três com idade acima de 23 anos, como Pabón, que teve uma passagem sem sucesso no São Paulo, e do zagueiro Tesillo, do Independiente Santa Fé. Definitivamente, não será uma parada fácil para nenhum dos lados.

 

Com vocês, o caótico futebol argentino

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Existe um ditado que diz: a casa do vizinho sempre parece melhor do que a sua. Pois bem, se você acha que o futebol brasileiro está ruim, deveria olhar com atenção para o país mais ao sul. A situação da Argentina é, no mínimo, tão ruim quanto a nossa.

Sem ganhar um título internacional há 23 anos, os argentinos convivem com uma intervenção na Associação de Futebol, uma bagunça diretiva que levou o técnico Tata Martino a pedir demissão do cargo largando a seleção poucas semanas antes dos Jogos Olímpicos. Ele não sabia com quem contaria para levar ao Rio. Os clubes locais e estrangeiros se negavam a ceder os melhores jogadores. Foi chamado às pressas Olarticoechea, que dirigia interinamente a sub-20, e reuniu um grupo remendado e que acaba de ser eliminado na primeira fase ao empatar com Honduras por 1 a 1, com direito a sufoco hondurenho no fim para alegria da torcida em Brasília.

Você pode até me lembrar que a seleção principal está em terceiro lugar nas eliminatórias sul-americanas, três à frente do Brasil, que tem Lionel Messi, que foi finalista nas últimas duas edições da Copa América e da Copa do Mundo. A seleção lá como cá é só a ponta da pirâmide. Mesmo que ela somasse vitórias, ainda assim os clubes sofrem com a economia ruim do país, ameaçaram boicotar o campeonato nacional por conta da baixa quantia paga a eles, dirigentes presos por corrupção, e um êxodo cada vez maior dos seus principais jogadores. Um papelão olímpico, como escreveu o Olé em sua edição digital, que, torcemos, não se repita de noite em Salvador, e que ainda haja tempo para nossos cartolas aprenderem com o péssimo exemplo que vem daqui do lado da gente.

Micale quer mudar o futebol, mas trabalha para Marco Polo

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Acho natural a posição de Rogério Micale em defender seus jogadores e em especial o principal nome. Concordo com a opinião de que o brasileiro procura sempre um culpado numa tentativa de explicar o insucesso e que isso deixa a discussão rasa e longe de “realmente entender o que está acontecendo no futebol” do nosso país. Mas me pergunto – e o técnico não explicou – o que Iraque e África do Sul tiveram de diferente para terem empatado com o Brasil.

A mim, pouco importam as férias de Neymar, se foi ao jogo do Brasil, se tirou self com Hamilton, Justin Bieber, Donald Trump ou no túmulo de JFK. Me incomoda sua convocação logo após as férias. Acho um erro pois é natural que leve um tempo para ganhar ritmo de jogo. Será cobrado por algo que talvez não possa entregar.

Também não quero saber quem é o capitão, não é isso que fará a Seleção jogar melhor. Insisto em ouvir uma resposta para o Brasil não ganhar de seleções tão fracas, mesmo tendo um time melhor. Será que os dois adversários foram taticamente melhores que a Seleção? A Argentina cobra de Messi, títulos. O Brasil não pode porque sequer às finais Neymar e cia tem chegado.

Se Micale quer ajudar a mudar o futebol brasileiro, o primeiro passo seria não trabalhar com uma presidência da CBF que se esconde do mundo. Quando se diz “sim” a essa estrutura, por melhor que sejam suas intenções, nada colabora para a mudança. Combater a atual administração do nosso principal esporte seria o primeiro passo.

 

Hora de escalar a “determinação”

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A seleção olímpica masculina de futebol é a maior decepção desses primeiros dias dos Jogos no Rio de Janeiro. Cada torcedor, seja ele jornalista ou não, tem sua explicação para o time não ter feito um golzinho sequer na África do Sul ou, pior, no Iraque. Análises táticas daqui, comportamentais dali, e não há consenso a não ser que o que se viu é muito pouco.

Sou torcedor, sou jornalista e vou dar o meu pitaco aqui: não existe um culpado, mas todos. O técnico Rogério Micale erra na escalação de Zeca pela direita. O lateral do Santos é destro mas está acostumado a jogar pela esquerda e ali poderia fazer uma boa dupla com Neymar, o que não acontece com o Douglas Santos. Nos dois jogos, a Seleção não teve saída pelas laterais, com aproximações muito tímidas entre os jogadores.

A opção de jogar com três atacantes exige um meio-campo  de mobilidade e que atue mais próximos de Gabriel Jesus, Gabigol e Neymar. Renato Augusto está lento e previsível e Felipe Ânderson, apagado. Não tem transição ofensiva. Todos longe. Acho que está estourando na frente, uma conta que não é apenas do trio de ataque. Está na hora de o grupo se apresentar para o jogo, auxiliar, dar apoio – não com palavras – com ações dentro de campo.

A maior mudança que se espera do Brasil é de atitude. Essa palavra está surrada com o passar do tempo, mas isso é o que se viu no Iraque e na África do Sul e não vimos na Seleção. Será a determinação o melhor remédio para ganhar da Dinamarca. Esse “elemento” parece não ter sido escalado ainda. A Argentina, por exemplo, foi convocada e montada a menos de um mês da Olimpíada e, mesmo sem jogar bem, venceu na raça a Argélia. Os adversários não são melhores. O time brasileiro não é pior do que nenhum outro. É preciso que se tenha vontade, que se queira ganhar, focar, concentrar e trabalhar o coletivo. Só dessa forma o individual irá se sobressair. Dar entrevista ou não, ao fim do jogo, é o que menos me interessa. Quero ver ambição em campo e não enfado como se já tivéssemos conquistado tudo e que se apresentar para a torcida brasileira fosse algo muito chato.